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CAYMMI RELEMBRA AMIZADE COM JORGE AMADO

Rio de Janeiro - O compositor Dorival Caymmi recebeu a notícia da morte de Jorge Amado em sua casa, no Rio, e contou que os dois, apesar de serem os principais artistas da Bahia, se conheceram já adultos no Rio, em 1939, “apresentados por uns estudantes na Avenida Rio Branco, entre o Café Nice e o Café Belas Artes”, lembrou-se Caymmi. “Ele já tinha escrito O Pais do Carnaval e ficamos amigos desde então.”

Caymmi lembrou-se de ter feito muitas músicas para Jorge Amado ou inspiradas em seus livros. “A primeira foi para um filme rodado em Paraty, em que eu era um pescador e o Paulo Gracindo era o galã. Como eu conquistava as moças, disse que era um galã rústico”, contou o compositor. “Fiz também um música para uma peça baseada em livro dele, que eu chamava de Pai Jeremias. Não fez sucesso e depois mudei a letra para PaíXangô e ficou conhecida. Fiz também a Modinha para Gabriela, para a novela da TV Globo e foi muito cantada”, disse.

Em pelo menos dois romances, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Tereza Batista Cansada de Guerra, Dorival Caymmi aparece como personagem. “Ele me retratava como sou mesmo, sempre fazendo música.”

Apesar da amizade, os dois se viram pela última vez, na Bahia, em 1995, quando Caymmi recebeu uma homenagem por seus 80 anos. A idade redonda tinha sido completada em 94, mas o compositor só pôde ir a Salvador no ano seguinte. “Havia muita gente e ele falou algumas coisas em minha homenagem. Depois, conversamos um pouco. Ainda nos falamos algumas vezes por telefone, mas sempre muito rápido.”

Imagem - O compositor tem sua imagem registrada em 12 filmes, três com histórias de Amado: Estrela da Manhã, em que faz o vértice de triângulo amoroso formado com Dulce Bressane e Paulo Gracindo; Capitães da Areia, no qual contracena com Eliana Pittman, e Tenda dos Milagres. Neste, o compositor faz participação especial.

A primeira aparição de Caymmi no cinema se deu em Joujoux Balangandãs (38), show de sucesso, filmado pelo italiano Amadeu Castelaneto. O compositor e cantor baiano só se lembra de ter participado do show, no Teatro Municipal/Rio. “Participei a convite de dona Darci Vargas, a primeira-dama.”

Depois, Caymmi atuou em Pureza, adaptação de Chianca de Garcia para obra de José Lins do Rego (40). “Interpretei um músico, que tocava violão num bar.” Mais tarde, sob o comando de Fernando de Barros, Caymmi fez testes e preparou­se para atuar em Mar Morto, que não vingou. A toada É Doce Morrer no Mar faria parte da trilha sonora.

Caymmi se lembra da gênese da canção: “Nos anos 40, estávamos reunidos na casa do pai de Jorge, em Vila Isabel. Lá estavam o gaúcho Érico Veríssimo e outros intelectuais. Sugeri, então, de brincadeira, que fizéssemos um concurso para ver quem fazia a letra da canção. Acabei ganhando e usei dois versos de Jorge como inspiração.”

Amizade - Quando Caymmi conheceu Jorge Amado, o escritor já era muito conhecido e havia publicado seis livros (entre eles Jubíabá e Mar Morto). Caymmi se firmava como compositor (o sucesso chegaria, para valer, em 39, quando gravou O Que Que a Baiana Tem?, com Carmem Miranda, para o filme Banana da Terra).

O encontro inicial na Avenida Rio Branco se multiplicaria em muitas rodadas de chope e reuniões na casa dos pais de Jorge. “Nosso grupo tinha Samuel Wainer, Carlos Lacerda, Octávio Malta, secretário de jornal, o médico Noel Nutels e Moacyr Werneck de Castro”, lembra Caymmi.

O escritor e o compositor só viam a fama se multiplicar. Em 50, deu-se a estréia, para valer, do “galã rústico” no cinema no drama praieiro Estrela do Mar, de Jonald Oliveira. O argumento de Jorge Amado foi roteirizado por Rui Santos e Jonald. Coube a Caymmi representar personagem de verdade: um pescador.

Nos anos 60, Caymmi passou, em pequenas participações, pelos elencos de Pluft, o Fantasminha (Romain Lessage, 61) e de Garota de Ipanema (Leon Hirszman, 67). Encerrou a década atuando em Capitães da Areia (The Wild Pack), do norte-americano Hall Bartlett.

No mesmo ano das filmagens de Capitães da Areia, Caymmi e Jorge Amado deram depoimentos ao filme Bahia por Exemplo, de Rex Schindler (69). Em 76, Caymmi faz participação especial em Tenda dos Milagres, o canto que Jorge Amado e Nelson Pereira dos Santos entoaram à miscigenação de raças. O compositor faria outra participação especial em Cinema Falado (Caetano Veloso, 86). Antes, no começo da década (83), participaria, em Roma, de megaevento estrelado pela nata da arte baiana. O show, que estabeleceu a ponte entre a Bahia e a “Roma negra”, foi filmado por Paulo Cezar Saraceni, Leon Hirszman (1937-1987) e Gianni Amico (1933-1990). O material só seria editado em 96, sobtítulo de Bahia de Todos os Sambas. No filme, vê-se Caymmi sendo entrevistado por Caetano Veloso (seqüência magistral) e cantando seus sucessos.

Para encerrar a longa trajetória cinematográfica de Caymmi (que continua compondo com rara criatividade, vide o tema da novela Porto dos Milagres), o cineasta Aluísio Didier realizou o documentário de longa-metragem Um Certo Dorival Caymmi (99). No filme, o compositor conta sua história e aparece em cenas do Programa de Andy Wlliams (EUA, 69) e em imagens do filme Estrela da Manhã.

Beatriz Coelho Silva

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