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JORNAL DO BRASIL 11/XI/1990
MEMORIA

Inesquecível 'amico' Gianni

 

O ita liano Gianni Amico
não se cansou de
divulgar o cinema e a música
popular brasileira no exterior

 

David E. Neves

 

Lusto no Dia de Finados, numa manhã de lusco-fusco carioca, morre, na Itália, um dos maiores amigos do Brasil, de seu cinema e de sua música popular: Gianni Amico.

Cometo uma falha semântica, abrindo o texto com a palavra "justo", porque, na verdade, nada foi mais injusto. O Gianni de nosso tempo me parece uma continuação imutável que me aceitou em 1963 em Sestri Levante em uma das últimas Resenhas do Cinema Latino americano.

Aprendeu progressivamente o português que, finalmente, começou a dominar, filtrado pelo seu sotaque setentrional.

Ora, a Resenha era dedicada ao cinema de um continente subdesenvolvido, o que já parece coisa surrealista, uma vez que el se desenrolou (três a quatro anos) nas cidades 'ia Rivera Ligure (basicamente em Santa Margherita, na Itália). O indecifrável Amico dedicou se a um trabalho que devemos considerar inestimável, subsidiado por uma instituição genovesa, chamada bem a propósito de Columbianum e dirigida por um padre jesuíta, Angelo Arpa, cuja sincronia com Gianni nesses anos me pareceu fundamental para sedimentar a penetração do nosso cinema no Velho Mundo.

Digo isso, porque, primeiro, tonou se evidente (pelo menos aos olhos de um observador cm plena juventude como eu) a parcialidade dessa dobradinha a nosso favor e segundo, porque, realmente, no último (e quase` operistico ato) dessas inanifestaçóes a Ultima Resenha, da Fiera del Mn Gênova, no ano de 1965, a nossa "force e frappe" foi insuperável, consolidando posições e simpatias. É bom lembrar que a Columbianum convidou para o evento críticos e intelectuais de toda a Europa, e alguns, talvez já velhos amigos, de fora.

A partir daí "o nós lá, e ele cá" virou quase uma rotina. Não se pode esquecer a presença de Rudá Andrade no início e de Paulo Cezar Saraceni durante e até o insuportável desenlace.


Em Gênova, em 1965, António Cândido traçou um impecável perfil da nossa cultura através ele teses e antíteses, digamos, pós hegeliariitS'. Sem saber, ele estava inventando a história das Resenhas e a própria história de Gianni Amico, cineasta também. Um de seus últimos filmes era uma telebiografia de Gramsci. Apesar de harmonias e conflitos, a convivência de Amico com um jesuíta seduzido pelo Cinema Novo rendeu frutos "à brasileira": ambos nunca perderam, nem esqueceram nosso jogo de cintura.

O obituário do JORNAL DO BRASIL publicado no dia seguinte da morte de Gianni supriu de longe certas impressões pessoais que eu gostaria de colocar nesta minha homenagem ao amigo inesquecível.
Como, digamos, certa decadência empresarial e ima ginati a do nosso cinema, Gianni passou-se com armas e bagagens para a nossa música popular (cujo vírus ele guardava no sangue há tempos, sem escon der o fato a ninguém). Outros amigos e "biógrafos" dedicar se ão ao mister de destrinchar as liames evidentes e recônditos dessas relações, bem como as da triangulação parafutebolística, que armou entre nós e a Itália de Bernardo Bertolucci.


Gianni Amico (a esquerda) com David Neves, em 1963, na Italia

David Neves wrote to Vera:
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