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Lusto
no Dia de Finados, numa manhã de
lusco-fusco carioca, morre, na Itália,
um dos maiores amigos do Brasil, de seu
cinema e de sua música popular:
Gianni Amico.
Cometo
uma falha semântica, abrindo o texto
com a palavra "justo", porque,
na verdade, nada foi mais injusto. O Gianni
de nosso tempo me parece uma continuação
imutável que me aceitou em 1963
em Sestri Levante em uma das últimas
Resenhas do Cinema Latino americano.
Aprendeu
progressivamente o português que,
finalmente, começou a dominar,
filtrado pelo seu sotaque setentrional.
Ora,
a Resenha era dedicada ao cinema de um
continente subdesenvolvido, o que já
parece coisa surrealista, uma vez que
el se desenrolou (três a quatro
anos) nas cidades 'ia Rivera Ligure (basicamente
em Santa Margherita, na Itália).
O indecifrável Amico dedicou se
a um trabalho que devemos considerar inestimável,
subsidiado por uma instituição
genovesa, chamada bem a propósito
de Columbianum e dirigida por um padre
jesuíta, Angelo Arpa, cuja sincronia
com Gianni nesses anos me pareceu fundamental
para sedimentar a penetração
do nosso cinema no Velho Mundo.
Digo
isso, porque, primeiro, tonou se evidente
(pelo menos aos olhos de um observador
cm plena juventude como eu) a parcialidade
dessa dobradinha a nosso favor e segundo,
porque, realmente, no último (e
quase` operistico ato) dessas inanifestaçóes
a Ultima Resenha, da Fiera del Mn Gênova,
no ano de 1965, a nossa "force e
frappe" foi insuperável, consolidando
posições e simpatias. É
bom lembrar que a Columbianum convidou
para o evento críticos e intelectuais
de toda a Europa, e alguns, talvez já
velhos amigos, de fora.
A
partir daí "o nós lá,
e ele cá" virou quase uma
rotina. Não se pode esquecer a
presença de Rudá Andrade
no início e de Paulo Cezar Saraceni
durante e até o insuportável
desenlace.
Em Gênova, em 1965, António
Cândido traçou um impecável
perfil da nossa cultura através
ele teses e antíteses, digamos,
pós hegeliariitS'. Sem saber, ele
estava inventando a história das
Resenhas e a própria história
de Gianni Amico, cineasta também.
Um de seus últimos filmes era uma
telebiografia de Gramsci. Apesar de harmonias
e conflitos, a convivência de Amico
com um jesuíta seduzido pelo Cinema
Novo rendeu frutos "à brasileira":
ambos nunca perderam, nem esqueceram nosso
jogo de cintura.
O
obituário do JORNAL DO BRASIL publicado
no dia seguinte da morte de Gianni supriu
de longe certas impressões pessoais
que eu gostaria de colocar nesta minha
homenagem ao amigo inesquecível.
Como, digamos, certa decadência
empresarial e ima ginati a do nosso cinema,
Gianni passou-se com armas e bagagens
para a nossa música popular (cujo
vírus ele guardava no sangue há
tempos, sem escon der o fato a ninguém).
Outros amigos e "biógrafos"
dedicar se ão ao mister de destrinchar
as liames evidentes e recônditos
dessas relações, bem como
as da triangulação parafutebolística,
que armou entre nós e a Itália
de Bernardo Bertolucci.

Gianni Amico (a esquerda)
com David Neves, em 1963, na Italia
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