Espero,
no fundo do meu coração, que recebas
esta, no melhor do céu. Não conseguia
mais dormir em paz, vendo a terra,
que era, como sabes, como a Glauber
chamava o Brasil; fazer tanta ingratidão.
Afinal,
quem foi o nosso maior embaixador?
Quem levou nossas artes para a Itália,
Europa, França, Bahia?
Foste
tu, que, nascido perto de Gênova,
levaste em 1961, a primeira grande
retrospectiva do cinema brasileiro,
nos permitindo ver “Ganga Bruta”do
velho Humberto Mauro, obra prima,
tão cheia de toques. Sobre tua batuta,
o festival de Santa Margherita, ao
premiar “Arraial do Cabo” inaugurou
o Cinema Novo.
Em
1965, em Gênova, com patrocínio do
Columbianum, padre Arpa, novamente
um Jesuíta, novo Anchieta, te dava
azas para que tua alma se transformasse
num melhor ainda Cristovão Colombo
e fizesse a união amorosa do terceiro
mundo. Estava inaugurado o teu movimento
- o Cinema Novo da Afetividade. Que
momento extraordinário de amor e beleza.
Em 1966, muito antes de nós brasileiros,
filmaste Caetano e Gil.
Em
1967, em pleno nordeste brasileiro,
revisitaste “Vidas Secas” e nos deste
o belíssimo “Tropici”, admirável exemplo
de afeição e cinema.
Depois
voltaste para tua querida Itália e
fizeste filmes curtos e longos , falando
desse cinema afetivo, cujo manifesto
é “Afinidades Eletivas”, num misto
de sutileza e carne.
Mas,
nunca esqueceste a Terra. E quando
pintou a oportunidade, fizeste, no
imenso Macenzio, em Roma, o maior
espetáculo musical da Terra , “Bahia
de Todos os Sambas”, onde juntaste
a música e o cinema numa banda só.
Mostrando aquele triunfo que foi.
Quem não teve lá, naqueles nove dias
gloriosos e inesquecíveis para toda
a nossa geração, perdeu. Se queram
ver a prova, paguem a montagem/edição,
para verem estas trinta e seis horas
filmadas, no palco, nos monumentos
históricos ... a homenagem a Glauber
Rocha, inaugurando os espetáculos,
com “A Idade da Terra”,verem Gil ,
Gal e Caetano cantando além deles
mesmos, a música de “Deus e o Diabo
na Terra do Sol”. Verem Caymi, Nana,
Dori e Danilo serem aplaudidos por
mais de quinze mil pessoas e ali,
naquele palco, depois que o grande
Batatinha pede Agó, licença ao povo
romano, sempre sobre a tua batuta,
Naná Vasconcelos se transformar em
música e dar passagem para a noite
de todos os sonhos. Lembras, naquela
noite tensa que antecedia a entrada
de João Gilberto, que junto com a
sinfónica iria dar, doar o que serão
os espetáculos musicais dos anos 2000.
Coisa do próximo milênio.
E
ainda tinha mais, cem mil pessoas
dançando o carnaval mais alegre, amoroso,
vertiginoso e louco que jamais vi
ou filmei, logo eu que sou pessoa
de velhos carnavais. Tudo ao som e
na presença do trio elétrico de Dodô
e Osmar.
Tirei
e tiro sempre o meu chapéu, para tal
craque. Contigo, Leon Hirszman, Dib Lufti, Luiz Saldanha, Tonino, Fiorella Amico, a turma de Bernardo Bertolucci
e tantos amigos, todos nós apaixonados
pela tua paixão. Filmamos.
Tenho
certeza que Roberto Rossellini assinaria.
Que
bom que Luizinha esteja fazendo esta
homenagem. Jean-Luc Godard vai vibrar. Com
Bernardo Bertolucci, Olmo Amico, Marco Melani, Adriano Apra, Fiorella Amico, Metka Kosak, Ezio, Keko Altan, Sylvie Pierre, Jean Narboni,
agradecidos a Joel Barcellos, estaremos de braços
dados em pleno planalto central do
Brasil, pensando em ti. E essa áurea
que estará sobre nossas cabeças será
o sinal de que a tua eleição estará
mais “presença” do que nunca.
Agora
poderei dormir em paz e como tu e
Leon me pediram e eu prometi, aceitarei
qualquer proposta para terminar, só
falta montar, esse “Bahia de Todos
os Sambas”, que será filmes, vídeos,
especiais de televisão, cable e satélites
etcetera e tal. O maior espetáculo
musical da Terra.
Baci.
Paulo
Cezar Saraceni