É
sabido que o Cinema Novo extravasa
expressivamente a cronologia dos filmes
produzidos e o roll dos seus autores
e teóricos. Foi sustentado por uma
série de elementos envoltórios, especialmente
fatos e ações políticas e culturais,
que situam o movimento mais próximo
ao fato social que ao estilo cinematográfico.
Nesse contexto, muita gente - realizadores
ou não - se envolveu e alguns se destacaram.
Entre os últimos está Gianni Amico,
com participação relevante, principalmente
no âmbito internacional. Abriu na
Europa o debate, o intercâmbio intelectual,
possibilitando o desenvolvimento das
relações do Cinema Novo com outras
manifestações análogas, sobre as quais
o nosso movimento acabou exercendo
influências significativas.
A
posição de Gianni no início dos anos
60 representava o embrião das idéias
oposicionistas, consolidadas 30 anos
depois, a propósito das comemorações
do quinto centenário do descobrimento
da América. Refiro-me ao legítimo
interesse demonstrado nas manifestações
não oficiais desse evento a propósito
dos valores autoctones do continente
e por aquilo que conseguimos até agora
como experiência cultural emancipada;
à reversão do conceito histórico dos
colonizadores; à procura de novas
idéias, novos valores para uma incorporação
revitalizadora na cultura do Velho
Continente. Isso era, dentro de um
contexto ideológico mais pragmático,
o pensamento de Gianni e seus companheiros
de entidade cultural "Columbianum"em
1961, quando os conheci.
Nessa
época chegou a São Paulo, convidando-me
pra realizar um trabalho para a Unesco.
Não era da instituição e falava com
intimidade em nomes como Fulchignoni,
Rossellini, Edgar Morin etc. Desconfiei.
Mas logo fui cativado pelas suas idéias,
apenas esboçadas, porém sustentadas
por sólida convicção e pela sua enorme
simpatia. Contagiado, lid ao seu reencontro
em Santa Margherita Ligure, Gênova.
Foi ali, durante o Festival de Cinema
Latino-Amencano, organizado por Gianni,
que se deu a introdução do Cinema
Novo na Europa. Afogado nos afazeres
organizacionais, Gianni limitava sua
participação nos eventos mas encontrava
forças para as conversas e diversões
noturnas.
Numa
noite, após o embalo das canções do
jovem desconhecido Gino Pauli, Gianni
deixou-nos à beira-mar. Mal acomodados
no precário barco, revezando os remos,
deslizamos nas conversas das escuras
águas da Riviera, eu, Paulo Cézar,
Joaquim Pedro e Gustavo, para retomamos
somente ao despertar do dia. Em terra
firme Gianni nos aguardava em vigília,
enquanto o solene amanhecer mediterrâneo
impunha a gravidade da situação. Era
o momento de nos prepararmos para
participar e expor aos atentos espectadores
internacionais o filme programado
na mostra restropectiva, por volta
das dez da manhã. Para o grupo, tratava-se
da obra que poderia ser considerada
como a "maneira"do cinema
brasileiro; a referência histórica
dos novos caminhos tateados pelo nascente
Cinema Novo: era Ganga Bruta.
No
Brasil Giamíi é pouco cohecido. O
filme que aqui realizou, Os Trópicos,
foi pouco difundido. Que esta homenagem
não se transforme numa incógnita,
como ficou para Mário de Andrade o
nome na placa da rua em que viveu:
que esta homenagem sirva, como referência,
para a justa observação sobre a importância
e a presença de Gianni Amico no difícil
percurso da história do cinema brasileiro.
Rudá
de Andrade