“Minhas
amizades”, dizia o Glauber Rocha,
“não são psicológicas, são épicas”.
Levei uma elernidade de algum quarto
de século para entender o significado
daquilo, e foi conhecendo o Gianni,
bem antes de efetivamente encontrá-lo
cara a cara (o que aconteceu apenas
em 1955, no Fest-Rio de Janeiro, enquanto
desde 1969, eu já sabia do Gianni,
amigo dos meus amigos), que me dei
conta de que algumas alianças fundas
independiam do tempo, do espaço, das
circunstâncias, seja de vida ou de
morte, que proporcionavam ou impediam
os encontros objetivos. Amizades épicas
nascem no geral da batalha, no global
da geo-políticahistória, e não no
acaso particular do afeto individual.
Não que elas não sejam afetivas -
talvez sejam até as mais temas, as
mais delicadas, as mais adamantinamente
sentimentais - mas elas, têm uma especificidade
que vai além do misterioso « parce
que c’était lui, parce que c’était
moi”das “amizades a Ia Montaigne:
amizades épicas fazem parte da epopéia,
do poema, do mito. Nelas se define
a fronteira entre gregos e troianos.
Amigos épicos têm os mesmos inimigos,
que eles, entre si, nem precisam nomear.
São da mesma nova guerra, dos mesmos
outros carnavais. São do mesmo samba,
ou então, ruins da mesma cabeça, ou
doentes do mesmo pé. Do mesmo team,
da mesma cabeça. Vejam bem que eu
não estou falando do Fla contra Flu,
nem de cinema nacional contra transnacional,
nem de versão demora o Amigo Mesmo.
Lembraremos, movimento, viagem. Forte
foi o passapor “Terra. Revendo “Tropici”
naquela noite b até o planalto central
da idade da terra, o novo, quanto
conseguia, ele, virar candang.
É
sabido que o Cinema Novo e produzidos
e o roll dos seus autores e envoltórios,
especialmente fatos e ações 1 próximo
ao fato social que ao estilo realizadores
ou não - se envolveu e Amico, com
participação relevante, prir Europa
o debate, o intercâmbio intelecto
do Cinema Novo com outras manifestaç
acabou exercendo influências significativa.
A
posição de Gianni no início oposicionistas,
consolidadas 30 anos dc centenário
do descobrimento da América manifestações
não oficiais desse evento : por aquilo
que conseguimos até agora coi conceito
histórico dos colonizadores; à incorporação
revitalizadora na cultura do ideológico
mais pragmático, o pensame cultural
“Columbianum”em 1961, quandc Nessa
época chegou a São Pau original dos
vencidos contra versão yankee multinacional
dos vencedores (de batatas): a batalha
travada com Gianni tem campos ceais
abertos, generosos, e mais segredos
elíseos...Não é batalha do contra
mas a favor, do mano en Ia mano, do
raça com raça. Do norte da mente com
o sul do corpo, do macho com fêmea.
É de latinos com latinos, em missões
transoceânicas e interimperiais. É
do Édipo-rei salvo das imagens da
cegueira, e da culpa, pela abertura
ao inconsciente, tocando harpa com
o padre. E de bossas sempre novas,
no campo das eternas flores, é de
Bar Esperança no Rosatti, é de futuros
que não acabam. Lembro com emoção,
certa noite do ano passado, em São
Paulo, na sala da Cinemateca, quando
na ocasião do primeiro Euro-fine,
Rudá de Andrade homenageou o Amico
em termos tão vibrantes que, através
das nossas lágrimas, apenas conseguimos
falar alguma coisa, depois de Rudá,
Paulo Cezar Saraceni e eu. Vencemos
porém , a psicologia da pertubação
emotiva para levantar o épico das
únicas palavras úteis: para nós Gianni
foi e demora o Amigo Mesmo. Lembraremos,
mais uma vez, que o assunto é Cinema,
seja movimento, viagem. Forte foi
o passaporte daquele gringo carimbado
por tanto amor ‘a “Terra. Revendo
“Tropici” naquela noite bela, fiquei
maravilhada do sertão das vidas secas
até o planalto central da idade da
terra, o Gianni não tanto sintetizava
a temática do cinema novo, quanto
conseguia, ele, virar candango.
Sylvie
Pierre
Paris,
1 de novembro de 1994