Girl from Ipanema

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IPANEMA

as belas imagens

Fernando Gabeira

Ipanema - Vera Lucia Carlos Pereira
No Zepelim ha fartas teorizacoes sobre cinema, mulher e a revolucao social, regadas a chope

Pensar como um guerrilheiro e matar o tempo como um marechal reformado – eis a contradição que leva a esquerda festiva carioca à busca de uma síntese etílico-verbal em Ipanema, bairro onde moram dois Ex-presidentes, Juscelino Kubitscheck e Eurico Gaspar Dutra.

Mundo encantado e República de Ipanema são apenas alguns dos atributos que os jornais dedicam ao lugar, transformado, de três anos para cá, pela ordem, em matéria de crônicas sucessivas, colunas sociais e suplementos de cultura.

— O pôr do sol visto do Arpoa- dor é um espetáculo de absoluta seriedade — declara o ex-Presidente Juscelino Kubitscheck, que vive na Vieira Souto, 206.

Afirma O Globo:

— Ipanema é um dos bairros mais fotografados e historiados do mundo com suas garotas sensacionais — Duda Cavalcanti é a maior relações-públicas —, sua praia, sua paz e seus tipos particulares.

— O movimento cultural do bairro — dizia o colunista Carimbos de Oliveira — é de uma importância muito grande para o País. Está para o resto do País como Greenwich Village está, para os Estados Unidos.

NASCE UM MITO

Ninguém sabe exatamente como tudo começou. Os jornais publicam reportagens sobre o bairro, mas limitam-se a relacionar seus quatro monumentos, 12 restaurantes, sua biblioteca particular, chamada Poliglota, e seu hospital dos comerciários. Às vezes, referem-se a uma clinica veterinária onde são tratados "até problemas sentimentais de cães e gatos". Problemas sentimentais que, à noite, nos quatro bares da moda — Zepelim, Veloso, Jangadeíros e Pizzaiolo — significam, numa linguagem própria, em vias de exportação para outros pontos do País, estar na fossa ou fundir a cuca.

Mas é evidente a influência dos cronistas, destacando-se Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Carlinhos de Oliveira. O primeiro fixou-se principalmente na paisagem do bairro. Em agosto de 64, uma, revista mineira chamada Alterosa despachou um repórter para entrevistá-lo. Motivo da missão: construíam um novo prédio defronte ao seu apartamento, na época o 401 da Prudente de Morais, 568. Título da reportagem: Este Homem Vai Perder o Mar.

Paulo Mendes Campos escreveu a crônica O Cego de Ipanema, mais tarde título de um livro enfeixando outros trabalhos. Finalmente, Carlinhos de Oliveira dedica-se a fixar a atmosfera intelectual, com destaque para a descrição de suas mulheres de cabelos longos e calças Lee como as de Copacabana.

A arrancada começou com a música Garôta de Ipanema composta em 61 e cantada até hoje. As emissoras há dois anos chegavam a rodar o disco seis vezes por dia, três em português e três em inglês.

A COISA MAIS LINDA

O êxito da canção abriu uma nova fonte de artigos leves. Queriam saber: quem é a garota de Ipanema, como são as garotas de Ipanema, onde foi composta a música. A última pergunta teve uma resposta rápida. A música fora composta no Bar Veloso, esquina de Montenegro com Prudente de Morais. Hoje, o bar se chama Garôta de Ipanema e transformou-se num ponto turístico. Armou-se um painel com letra e música de Garota de Ipanema, assinadas por Vinícius de Morais e Tom Jobim. Foram necessárias algumas transformações para atender à nova clientela. Pensou-se em substituir as mesas de mármore por outras de fórmica. Houve uma reação dos freqüentadores e a idéia negou fogo. Ainda assim, ergueu-se um toldo azul, laranja, verde e branco que passou a ser o símbolo da transformação, juntamente com seis mesas adicionais pedidas à Brahma.

A primeira pergunta, entretanto, não foi respondida de pronto. A verdadeira garôta de Ipanema — assim os jornais chamavam a moça que ins- pirou a canção — era noiva e não que- ria publicidade. Sabia-se que se chamava Heloísa Helena, mas isso era tudo, pois os próprios compositores tornaram-se cúmplices de seu segredo. Finalmente ela capitulou. Começou dando uma entrevista, seguiu apresentando o noivo, casando-se diante das câmaras fotográficas e, possivelmente, sairá em Mangueira ao lado de Vinícius e Tom, ilustrando o enrêdo A História do Samba.

Daí para diante, já fortalecidas pelas crônicas, tôdas as garôtas de Ipanema passaram a interessar aos jornais. No seu número dedicado à juventude, a revista Cláudia escolheu uma de 17 anos, Maria Luísa de Marillac, para simbolizar a garôta carioca.

Ao longo do texto, Maria Luisa revela que só lê jornais "quando está acontecendo alguma coisa importante" e não se preocupa muito com livros "porque tenho preguiça, fico com sono". Adiante afirma que "Fidel Castro é quem manda em Cuba" e Mao é "quem manda na China comunista, é o ditador, ditador não, sei lá, é quem manda". Eis um trecho completo do diálogo:

R — Você é independente?

ML — Ah, eu não, mas quero ser. Mas acho que nunca vou ser.

R — Por quê?

ML — Ah, depois vem marido, a gente nunca pode ser mesmo independente.

R — Se você tivesse uma carreira, ganhasse dinheiro, não seria independente mesmo casando?

ML — Olha, os homens eu acho que não gostam dessa independência. E se aparecer assim um casamento, não faço questão da independência. Homem nenhum admite mulher ganhando mais do que êle, e mulher trabalhando fora dá problema, sempre dá. A não ser quando ela tem que trabalhar porque êle não da conta.

CULTURA E POLÍTICA

Ipanema

A importância de Ipanema nos jornais não parou em suas mulheres. Um suplemento de cultura já dedicou um artigo completo (Suplemento do Jornal dos Esportes) ao estudo das diferenças intelectuais entre os freqüentadores do Zepelim e os freqüentadores do Pizzaiollo. São comuns alusões a Ipanema mencionando "a inteligência brasileira", "um bairro com sua filosofia".

Embora morem no bairro Pena Boto e Filinto Müller, os dois mais bem sucedidos em política foram Juscelino e Dutra. Até agora se movimentam: Juscelino articula a frente ampla, no Flamengo, no apartamento do Sr. Renato Archer; e, finalmente, Dutra mantém-se firme contra a reabertura do jôgo. Um repórter o procurou para, uma entrevista a respeito e êle declarou:

— Pode usar meus pronunciamentos de 46. De lá para cá minha posição não se alterou.

Nas ruas de Ipanema há amendoeiras que amarelam o chão no outono. Algumas, como a Alberto de Campos, são tranqüilas o bastante para que as crianças a cerquem e armem uma rede decolei. Pràticamente, o bairro só conheceu dois movimentos políticos: as marchas dos integralistas, antes da guerra e a partida da Marcha com Deus pela Família, em 64.

À noite, entretanto, Ipanema se politiza. Discute-se em dois bares: Zepelim e Pizzaiollo. Se os garçons, Nicácio do Zepelim, ou Chico do Pizzaiollo, assumirem um dia seu sindicato eles terão um vocabulário capaz de por si próprio resultar num IPM, tal a quantidade de termos políticos que ouvem de raspão. No Pizzaiollo já se usa, de madrugada, quando o bar deve fechar, uma frase definitiva para' encerrar a discussão:

— Agora chega. Deixem um pouco para o Governo porque o País já foi quase todo salvo por vocês.

Qualquer observador bem situado pode surpreender frases como essas no Zepelim:

— Não, espera lá, assim você está tirando do contexto.

— Quero dizer apenas que o principal é radicalizar. No que radicalizou êles estão perdidos.

Êles são os gorilas, os milicos, o isso-que-está-aí, a estrutura. O primeiro sinal de organização da esquerda-festiva, segundo os que a estudam foi a criação do Grêmio Lítero-Musical de Ipanema, que já promoveu dois desfiles da banda, partindo dó Jangadeiros até o Zepelim, e mais um, especialmente para o cineasta Domingos de Oliveira, que o filmou.

A palavra contradição é usada discretamente. Como conciliar, por exemplo, o desejo de reformar o País com o pavor de sair do túnel, isto é cruzar as fronteiras da Zona Sul, delimitadas pelo Túnel Novo, na Avenida Princesa Isabel?

A ESQUERDA-SAMBISTA

A única alternativa que as esquerdas de Ipanema encontraram para os Peace-Corps, que trabalham nas favelas cariocas, foram as incursões pela gafieira Estudantina, no biênio 64-65. Naquela época, as festas representaram uma condenação implícita da bossa nova e uma adesão ao samba autêntico. Para eles — o livro de J. Ramos Tinhorâo sôbre música popular situa o conflito — a bossa nova representava o samba americanizado e era preciso prestigiar uma música feita por compositores "compromissados com a temática brasileira".

— Demos aquela de ir ao encontro do povo — diria um dos teóricos do movimento.

A esquerda-festiva praticamente começou com as festas de réveillon promovidas por Jaguar e Albino, no Silvestre. As adesões foram feitas às centenas e o JB já publicou uma lista onde até o Embaixador do Senegal figurava.

Enfim, uma esquerda apolítica — matéria para os colunistas sociais. Mas por trás disso, num plano sério, havia também uma produção artística regular, da qual os trabalhos mais discutidos foram os shows Opinião, Liberdade, Liberdade e os filmes Terra em Transe e O Desafio. Todos foram produzidos depois de 64. .Os; dois últimos apresentam um herói com trajetória semelhante: intelectual da classe média que se revolta contrata a estrutura e decide lutar para torna-la mais justa. Ambos deixam suas mulheres no meio do caminho e ambos aparecem sós no final dos filmes — o que parece sugerir que a revolução brotará quando cada um tomar consciência de seu papel, assim como surge a opinião pública da soma das opiniões individuais, ou o preço nos mercados resulta da ação ponderada e individual de todos os compradores.

O que torna a esquerda-festiva mais singular são suas subdivisões, ainda não esgotadas pelo noticiário. Entre êles há os da linha chinesa, ou cubana, e os da linha russa e, completando, os alienados, usados aqui para designar os que participam sem se interessar por política. A linha cubana exige uma revolução: a linha russa não a admite no momento, por julgar que faltam condições objetivas. Á linha russa prega uma atuação dentro dos quadros existentes; à outra recusa tudo para começar a derrubáIo. Êsse tema foi transplantado da discussão que existe em todas as esferas de esquerda da América Latina. A particularidade fixa-se na discussão sobre a existência de uma burguesia nacional, eventual aliada dos revolucionários. A linha cubana nega importância à burguesia nacional e mostra como é gradativamente absorvida pelos grupos estrangeiros; a linha russa pretende estimulá-la, por, considerá-la aliada importante no processo de transformação pacífica.

A política não é tudo na atmosfera intelectual de Ipanema, mais ou menos dividida pêlos seus bares, com constantes alterações.

NO CHOPE, A VERDADE

O Castelinho, depois de 64, parecia reunir todas as celebridades hoje dispersas no bairro, algumas retiradas para o Leblon, onde a moda já os atraiu. Não só a juventude, que hoje freqüenta o drug-store da Lagoa, como jornalistas, cineastas e gente de teatro apareciam para tomar um chope cobrado a NCr$ 0,50, quando o preço nos outros bares era NCr$ 0,25. As colunas sociais dedicavam grande espaço mencionando o nome dos freqüentadores, tal como dedica hoje ao António’s, no Leblon. O bar que já era cheio começou a mudar de freqüência. Eis, como um jovem de Ipanema explica:

— As coisas aqui são assim. Descobre-se um bar, freqüenta-se, os jornais falam e a freqüência começa a piorar. São os da Zona Norte ou do interior que o invadem.

Mas a verdade é que tanto o Castelinho como praia quanto o Castelinho como bar entraram na moda. Os colunistas baseavam-se nos nomes e os preços eram altos. Os jornais custam apenas NCr$ 0,20 e circulam em todo o País. A atmosfera que descreviam passou a fascinar. Um jovem mineiro declarava na época:

— Se não viesse ao Castelinho não acreditaria que estive em Ipanema. E também não adiantava voltar dizendo que estive. Ipanema é o Castelinho.

Ao lado do Castelinho ficava o Rio 1800 que teve uma sorte diferente. Não conferia aos seus freqüentadores uma importância especial nem servia de referência para suas histórias quando voltavam da viagem. O Castelinho vendeu sanduíche de atum a NCr$ 1,50 e um passaporte para Ipanema dos jornais.

Daí por diante houve uma dispersão maior. Os que freqüentavam o Paredão ou o Castelinho, nos domingos de sol, mudaram-se para a Montenegro. Ali, ao pé da letra, deveria ficar a garota de Ipanema. A canção diz que ela caminha para o mar e a canção foi composta no Veloso, esquina de Montenegro com Prudente de Morais.

Ao Zepelim agora vão quase que diariamente cineastas como Gláuber Rocha, Válter Lima Júnior, Paulo César Sarraceni e Maurício Gomes Leite. Sem contar jornalistas de variedades e mulheres famosas como Duda Cavalcânti, Odete Lara, Maria Betânia e Tuca. Às vezes, ao longo de, suas paredes verde-garrafa, surpreende-se num canto os pintores da nova objetividade: Dias, Vergara ou Gerchmann. O fluxo de notícias passou a trazer gente só para ver. A relação platéia-artista transplanta-se também para o bar. Há noites em quê são feitas entradas triunfais, com abraços, gritinhos, e saudações que uma câmara cinematográfica poderia fixar.

Ao Pizzaiollo, vão jornalistas na maioria. Ali fala-se mais baixo. Durante a guerra no Oriente Médio falava-se mais baixo ainda. O número de pessoas quase nunca ultrapassa a 50 porque o bar tem apenas 16 mesas, algumas para casal. Não se vende chope nem bebida sem jantar. Num dos cantos joga-se dama. Toca-se música suave. O tom é diferente mas a discussão não se extingue. Um da velha geração dizia outro dia:

— Há várias maneiras de me sentir superado. Uma delas é ouvir isto que você está dizendo.

O interlocutor era um jovem e acabara de dizer:

— O Sartre está mesmo na préhistória.

Na entrada do Pizzaiollo há uma lanterna vermelha. A lanterna vermelha parece brilhar para apenas uma pessoa nos últimos dias: Jean-Paul Sartre. Os ataques começaram quando assinou o manifesto pró-Israel. Mas não cessaram aí entretanto. Depois disso, aos poucos, começaram a aparecer os estruturalistas. Pela primeira vez no Brasil discutia-se num bar e ardentemente se Levy-Strauss tinha realmente liquidado com Sartre. Levy-Strauss acabara de entrar na moda naquela noite — moda que um ensaio do Time confirmaria uma semana depois. Atacado por todos os lados, defendido por poucos, Sartre aos poucos foi se apagando. Parece que o liquidaram definitivamente. As vêzes, um dos jornalistas da nova geração pára de repente de jantar, vira-se para os outros e diz:

— E o Sartre hein, rapas?

Êle balança a cabeça tristemente e continua a comer.

DAQUI PARA O FUTURO

Ipanema tem 90 mil habitantes e resistiu até o Governo Lacerda ao Decreto 6 000 que limitava o gabarito de seus prédios. O bairro está crescendo rapidamente. Novos restaurantes se anunciam. Um deles será o de Zé Trindade, na Visconde de Pirajá, quase esquina com Farme de Amoedo. Ainda há lugares que são explorados silenciosamente. Os casais pobres podem namorar tranqüilamente nas praças desde que não ouçam aos domingos os sermões dos presbiterianos, ameaçando com o fim do mundo. Adiante há uma igreja mais alegre, a da N. S. a da Paz. Lá os padres exploram o boliche e já fizeram uma missa em iê-íê-iê. Lá funciona a CAMDE — Campanha da Mulher pela Democracia.

Já surgiu um jornal de Ipanema, com seis páginas, para falar de suas celebridades e circula em todos os bares, com artigos e poemas de moradores do lugar. A imprensa que costumava partir de madrugada agora vive ao lado.

O único perigo de Ipanema desaparecer é o de afrouxar o plantão das câmaras que a espreitam, lentamente se deslocando para o Leblon. Seu último morador não pôde partilhar dessa morte plácida. Era o ex-Presidente Castelo Branco que, ao se mu- dar para o Edifício Neuchatel, na Nascimento Silva, declarou:

— Daqui não saio, com os meus livros. Êsse apartamento será o meu sarcófago.

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