Jornal do Brasília

14
Nov
1994


ATOR DE CINEMA

Com 57 anos e 45 filmes no currículo, Joel Barcelos reencontra espaço para atuar no thriller que Walter Rogério roda em SP e onde interpreta papel de vampiro

Joel Barcelos photo Joel Barcelos durante o Festival de Brasília em 1988. O ator estrá na próxima edição do evento, no final do mês.

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO
De São Paulo

Joel Barcelos reencontra-se com sua profissão, depois de longo e tenebroso inverno. Ele está em São Paulo participando das filmagens de Os Olhos de Vampa. segundo longa-metragem de Walter Rogério, e nas horas vagas acerta com o amigo Bernardo Bertollucci detalhes de sua participação no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (29 deste mês a seis de dezembro).

Aos 57 anos, o ator que participou de 45 filmes, dirigiu dois, e integrou a linha de frente do CPC da UNE e do Cinema Novo, reencontra espaço para atuar. Só na Globo, que o manteve "na geladeira" durante longos anos, figurou em dois elencos de peso: o da novela Mulheres de Afeia é o da minissérie Memorial de Maria Moura.

Joel, "um carioca nascido no Espírito Santo", divide-se entre o Rio de Janeiro. Rio das Ostras e Brasília. É presença constante no Festival de Cinema Candango. Em 90. a cidade espantou-se ao vê-lo receber o Troféu Candango de “melhor ator coadjuvante" por sua atuação no filme Beijo 2348/72. Afinal, tinha aparição meteórica. Entrava mudo e safa calado.

Agora sim, com papel importante num filme do talentoso Walter Rogério, ele poderá ser melhor avaliado. Seu personagem, um vampiro brasileiro, compõem com António Abujamra, Marco Ricca, Christiane Triceri (a musa do grupo Ornitorrinco). Washington Gonzales e Maura Baiocchi, o elenco principal do filme.

Em longa conversa com o Caderno 2, Joel Barcelos avisou que a homenagem a Gianni Amico e a presença de Bertollocci em Brasília será registrada em película e não mais em vídeo. "Já acertei com Bernardo. Vamos realizar um filme, não um vídeo sobre sua visita ao Brasil, ao lado de Fiorella. Olmo Amico, e outros convidados internacionais do Festival". O ator vai assinar a produção. A direção caberá a Pedro Anísio, o planejamento visual a Rogério Duarte e a fotografia a João Faccó. "Não quero um registro deste momento, quero um documento".

— Bernardo Bertolluccl está para Iniciar a produção do episódio Italiano da série Centenário do Cinema, produzido pela TV Inglesa. Mesmo assim, vire ao Brasil? Não há risco dele cancelar, em cima da hora?

— De forma alguma. Estive com ele em Roma (mostra fotos do encontro) e está tudo acertado. Ele vem para homenagear o amigo Gianni Amico, que morreu em 90. Virá com a viúva, Fiorella, e o filho. Olmo (homenagem ao personagem de Dépardieu em Novecento), mais o organizador do Festival de Taormina, Marco Melanni, Enrico Ghezzi, que comanda programas sobre cinema na TV italiana e Metka Kosak, diretora de arte de O Último Imperador.

Joel Barcelos photo O ator interpret o papel de um índio no épico Anchieta José do Brasil, dirigido por Paulo César Saraceni na década de 70.

— Que Importância teve Glannl Amico na divulgação do cinema brasileiro? De onde velo sua paixão por nosso cinema?

Veio da juventude. Ele estava envolvido com um religioso genovês, padre Arpa (86 anos, celebrante da missa de corpo presente de Fellini, em outubro do ano passado). Este padre sempre se interessou por cinema. Enviou, então, Amico ao Brasil para descobrir filmes que servissem ao trabalho deles na Itália. Ao desembarcar aqui, Amico foi parar no CPC da UNE. Encontrou-se com Couro de Cato, de Joaquim Pedro: Arraial do Cabo, do Saraceni; Pedreira de São Diogo, de Leon Hirszman. Levou estes filmes para a Europa. Em 63, de uma só tacada, levou Vidas Secas, do Nelson Pereira. Deus e o Diabo, do Glauber, e Os Fuzis, do Ruy Guerra. Costumamos dizer que Gianni Amico transformou o Oceano Atlântico num rio. Um rio que pudemos transpor com facilidade, graças à sua ajuda.

— A partir daí, ele solidificou grandes amizades no Brasil e passou a divulgar o cinema brasileiro na Itália.

— Não só a divulgar nossos filmes lá, como a realizar filmes aqui. Era louco por samba e jazz. Um de seus filmes — Aí Vem o Samba — registra imagens e sons de Donga. João da Baiana e Pixinguinha. Você sabe o que é isto? Anos mais tarde (83), produziu documentário de longa-metragem, dirigido por Hirszman e Saraceni, que registra festa brasileira na Piazza Navona, em Roma, com Dorival Caymmi, João Gilberto, Batatinha e Gilberto Gil. Pena que o filme ainda não tenha sido concluído. Estive com Am iço em 89, menos de um ano antes de sua morte (novembro de 90). Estava bem, mas desiludido. Dizia, angustiado, que os cinemas nacionais e independentes haviam perdido a guerra. O triunfo de Hollywood era total.

— Você também pensa assim?

— Penso, mas faço o que posso para mudar esta situação. Houve épocas em que a barra pesou tanto na minha vida, que vivi como dublador. Há situação mais desesperadora para um ator que ganhar a vida dublando o artista do filme americano que lhe rouba espaço em seu próprio mercado? Sempre fui ator, e o teatro a minha grande escola. No CPC, eu mexia com teatro, mais até que com cinema. Mas chegou o momento, depois do arrocho da censura, que não deu para trabalhar. Quatro peças que ensaei com empenho foram interditadas (Barreia, de Plínio Marcos; Relações Naturais, de Corpo Santo; Pancho, de Tito de Lemos, e As Hienas, de Bráulio Pedroso).

— No final dos anos 60, você passou um tempo na Europa. Chegou a dirigir um filme para a RAI (Rede de Televisão Italiana).

— Entre 69 e 74, estive por longas temporadas na Europa. Fiz participação afetiva em o O Conformista, de Bertollucci, e atuei num filme do francês Alain Corneau (France Societé Anonyme). Já meu filme, O Rei dos Milagres, foi produzido pela RAI, mas rodado integralmente no Brasil. Era isto que eles queriam. Histórias brasileiras. Na mesma época, Joaquim Pedro dirigiu Os Inconfidentes. O argentino Gato Barbieri assina a trilha sonora de Rei dos Milagres e Glauber Rocha aparece como ator.

— Nos anos 70, a Embrafllme ganhou apoio do governo Gelsel e tornou-se empreendimento ambicioso. Você participou de dezenas de filmes produzidos por ela.

— É verdade, embora ache que o Estado deve investir apenas na infra-estrutura. Não distribuir prêmios em dinheiro. Há 300 cineastas querendo filmar. A grana só dá para 20 ou 30. Os outros 270 se frustram. E, para agravar, não há como escoar a produção. Veja o litoral fluminense. Promove atividades de animação cultural em Rio das Ostras. Há um único cinema na região, que é enorme. Por isso, os filmes brasileiros não têm como encontrar seu público.

Joel Barcelos photo Joel Barcelos numa cena de Copacabana Me Engana, de Antônio Carlos Fontoura, um dos 45 filmes que compoõem a carreira do ator.

— Mas nos anos 70 e parte dos 60, Q cinema brasileiro produziu grandes sucessos.

— Eu sei. Estive no elenco de Luz del Fuego, de David Neves: e Rio Babilônia. de Neville D'Almeida, dois grandes sucessos. Mas hoje. a situação é muito difícil.

— Seu primeiro trabalho no cinema foi em Os Fuzis, de Ruy Guerra?

— Para valer, foi. Antes, fiz figuração em chanchadas; trabalhei em Pedreira de São Diogo, um dos episódios de Cinco Vezes Favela, e num longa do Flávio Migliaccio, Os Mendigos (62), que não teve a distribuição que merecia. Ruy Guerra foi ator neste filme. Quando me chamou para Os Fuzis, iniciei trajetória que já rendeu 45 títulos. Depois vieram O Desafio, do Saraceni: A Falecida, de Leon Hirszman...

— Além de O Rei dos Milagres, você dirigiu outro longa. Paraíso no Inferno (77). Tem planos para nova Incursão como diretor?

— Não. A barra está muito difícil. Neste momento, quero concluir Os Olhos de Vampa e produzir Meu Caro Amigo, que será dirigido por Pedro Anísio, jovem talento de Brasília. Trabalhei com ele em Brasília, a Última Utopia.

— Você guarda prazeres especiais na sua vida de ator?

— Muitos. Fui figurante de Oscarito e trabalhei com Madame Satã na peça Lampião no inferno. Ele era satanás e eu o cangaceiro. Interpretei muitos nordestinos, sem nunca apelar para a caricatura. Nunca fiz algo no registro de Chico Anísio ou Renato Aragão, que gozam seu povo. Eu, ao contrário, sempre busquei registro emocional, comovido. Vide os personagens de Os Fuzis e A Grande Cidade.

Bruxa transforma Joel Barcelos num vampiro

Em Os Olhos de Vampa. Joel Barcelos interpreta um voyeur fixado em nádegas de moça. Em cenas registradas semana passada, no lixão da cidade de São Paulo, ele é encontrado, semi-morto, por uma velha meio bruxa (a brasiliense Maura Baiocchi). Ela usa seus poderes para fazê-lo "ressuscitar".

Ele volta ao mundo dos vivos com desejos vampirescos. Admira, de sua janela, a bela Diva, uma stripper interpretada por Christiane Triceri. E, inspirado nela, sai à caça de nádegas de moças jovens (interpretadas por modelos paulistanas, com exceção da atriz Fia via Monteiro).

Delas, suga todo o sangue. Matando-as, claro. O caso ganha foro policial. Um fotógrafo que trabalha para a perícia (Marco Ricca), produz bela foto do voyeur. Ele ganha notoriedade e passa a ocupar o imaginário das pessoas. Ganha até um nome, Vampa. O investigador Leõncio (Washington Gonzales), jovem e chegado a elucubrações psicológicas e filosóficas, sai em busca do causador de tantas vítimas. A stripper de Pinheiro, Diva, serve de isca.

O ator garante que o filme nada tem de pornográfico. "É um thriller. Os olhos de Vampa funcionam como os olhos do espectador, também voyeur". As filmagens serão concluídas dia 5 de dezembro. E, para exorcizar a experiência de Beijo 2348/72, que esperou seis anos para chegar às telas estreará em março do ano que vem. (MRC)


A trajetória de
Joel Barcellos em duas palestras

Ator e diretor revê carreira hoje e amanhã, no CineSesc, com a exibição de alguns filmes

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO
Especial para o Estado

O ator e diretor Joel Barcellos, de 65 anos, revê sua carreira em duas palestras no CineSesc, hoje e amanhã. Para ilustrar sua trajetória no cinema, ele vai exibir dois curtas. O primeiro, Pedreira de São Diogo, de Leon Hirszman, realizado há 40 anos, faz parte do longa Cinco Vezes Favela, produzido pelo Centro Popular de Cultura da UNE. O segundo, É o Bicho!, de Sylas Andrade, é uma produção recente (2001). "Os dois filmes, nos quais participei como ator, se passam em morros vizinhos na região central do Rio.
Hirszman filmou Pedreira de São Diogo no Morro da Providência, e Sylas realizou É o Bicho! no Morro do Pinto", relembra Barcellos.

O curta de Hirszman, produzido em 1962, somou jovens atores (Glauce Rocha, Chico de Assis, Joel Barcellos e Zózimo Bulbul) ao veterano Sady Cabral e a moradores do Morro da Favela, Cantagalo, Cabuçu e Borel. Ao longo de 18 minutos, Hirszman conta a história dos moradores de favela plantada sobre uma pedreira. Ao perceberem o risco de desabamento dos barracos, os moradores organizam movimento de resistência consegue impedir que acidente fatal leve os barracos morro abaixo.

O filme de Hirszman (1937- 1987) acredita que o "povo unido, conquista seus objetivos e jamais será vencido". Essa crença alimentou sua geração.

Passaram-se 40 anos e Sylas de Andrade mostra a nova realidade dos morros cariocas. Neles, a guerra do tráfico se faz sentir de forma marcante. O filme, de 26 minutos, propõe-se a registrar "foto ampliada do cotidiano infernal de cidade (o Rio) dominada pelo medo e na qual jovens carentes são recrutados para a guerra-espetáculo do tráfico de drogas". Só que "esta mesma sociedade é capaz de se organizar e interferir na realidade, reconhecer seus mitos e gerar seres humanos da qualidade do protagonista, Sabará".

Joel Barcellos vai narrar aos participantes do curso um pouco de sua trajetória também no teatro e na TV. Mas a parte mais substantiva de sua contribuição se dá mesmo no cinema. Ele atuou em 40 filmes (Os Fuzis, de Ruy Guerra; Memória de Helena, de David Neves; Trópico, de Gianni Amico; Rio Babilônia, de Neville D'Almeida), dirigiu dois (O Rei dos Milagres, que tem Glauber Rocha como ator; e Paraíso no Inferno) e prepara o terceiro, o longa Impérios.


A virtude está no meio

José Carlos Avellar

Joel Barcelos photo Su (Regina Casé) e Jairo (Joel Barcelos), namoro entre as músicas de Gil em Corações a Mil de Jom Tob Azulay.

QUANDO o título do filme surge na tela — as letras se desenham pelo movimento do fio que liga a guitarra ao amplificador, os plugs prateados correm e brilham contra o fundo escuro, a guitarra vermelha e em forma de coração pulsa como um coração mesmo — Corações a Mil parece com os muitos filmes produzidos aqui e agora para pegar o espectador através de uma sugestão de produto tecnicamente sofisticado. O letreiro de apresentação deixou de ser um simples cartão onde se dá a ler o nome do filme e das pessoas que o fizeram. Transformou-se numa coisa que funciona como anúncio de um produto requintado e pulsa como um anúncio mesmo, as letras coloridas brilhando, dançando, voando na tela para formar um símbolo, uma espécie de marca registrada.

Terminado o letreiro terminada a apresentação dos músicos que se apresentam no palco ao lado de Gilberto Gil, quando o filme propriamente dito começa. Su (Regina Case) e Jairo (Joel Barcelos), namoro entre as músicas de Gil em Corações a Mil de Jom Tob Azulay, parece com os muitos filmes feitos no tempo das chanchadas de carnaval da Cinédia ou da Atlàntida, que nas décadas de 30 e de 40 procuravam pegar o espectador através do jeito simples de sugerir uma ligação afetiva e forte entre o espectador e os cantores do rádio.

Uma criança pede esmola, Otelo retira sua certeira e percebe que dentro dela há diversas fotografias suas e algumas cartas.

A narração segue o exemplo da chanchada: os números musicais gravados (como uma reportagem ou como um disco feito ao vivo) durante a série de apresentações de Gil com o.show Luar, de Sul a Norte do país, são entrecortados por pequenas anedotas em torno do encontro de um tímido e desajeitado intelectual, que persegue os músicos para preparar uma tese de comunicação, e uma desinibida e solta admiradora, que persegue os músicos só pelo prazer de estar ao lado deles. O narrador repete o que se dizia nas chanchadas: defende um comportamento afetivo e ingênuo contra uma atitude intelectual e erudita, fazendo do primeiro uma caricatura de gestos espontâneos e soltos, e do segundo uma caricatura de gestos artificiais e pernósticos.

Segundo longa metragem de Jom Tob Azulay o primeiro foi um meio documentário meio musical sobre a interrompida exclusão de Caetano, Gil, Bethania e Gal ao Sul do país, Os Doces Bárbaros — este filme meio feito como uma antiga chanchada e meio feito como um produto modernizado parece agir às vezes impulsionado por Su, a admiradora que segue Gil apenas para ouvir e sentir a sua música, e às vezes impulsionado por Jairo, o desajeitado intelectual que remexe os instrumentos, as roupas e a casa de Gil para entender como a sua música se tomou um tão fácil meio de comunicação com o público. Ou seja: enquanto produto Coração a Mil parece seguir solto e sem controle (ou mais exatamente, controlado só pela emoção do instante de filmagem), assim como Su salta, ri, se abraça e beija os músicos.

Metade é bem uma chanchada à maneira antiga: os planos parados e rígidos sobre o ator Joel Barcelos enquanto ele faz Jairo, o estudioso cios meios de comunicação chamado para analisar a popularidade de Gil, e o Dr Honório (servindo-se só de um colete, gravata e um bem postiço cavanhaque para criar o novo tipo), o chefe da organização que encomenda a análise; a anedota em tomo da camisa que some da mala e aparece sobre a cama, como se tivesse saltado para lá sozinha; as anedotas que dependem quase só do que a atriz, Regina Case faz em cena, um pouco com gestos cuidadosamente desengonçados, um pouco com a fala também cuidadosa e intencionalmente desarticulada. Metade é bem uma chanchada porque a câmara, porque o filme como um todo, faz assim como Su no ensinar a Jairo a jogar no flipper: não pense, aperte o botão, que você se atrapalha rom o tempo que fica pensando.

Metade é bem o produto de aparência sofisticada que o letreiro de apresentação sugere; o som alto e definido nos trechos em que Gil se apresenta no palco, e a grande variedade de pontos-de-vista usada para mostrar Gil enquanto ele está no palco. Os cinegrafistas se movimentam muito em cena, para pegar um detalhe do rosto do cantor, ou o colorido dos sapatos e de sua roupa, ou o toque delicado e firme das mãos sobre as cordas do violão ou da guitarra, ou o gesto ligeiro para enxugar o suor sobre a testa, ou um pedaço ria platéia, ou o balanço entusiasmado e o sorriso satisfeito dos outros músicos no palco. Uma sofisticada sensação de intimidade com a cena, de (...) mesmo tempo da platéia la de trás dos bastidores, e bem ali na frente, na ponta do palco.

Na verdade esta sensação de produto sofisticado e tecnicamente requintado o es pectador recebe se permanece na superfície no imediatamente visível, porque cada uma destas imagens se impõe enquanto observação isolada e se desmonta enquanto parte de um conjunto, se na montagem, porque o salto de um plano para outro é mais ou menos aleatório. Obedece só a um sentimento intuitivo de que é necessário mudar de ponto-devista de tempo em tempo para agitar a visão não obedece a um princípio de composição. Talvez porque o princípio da composição seja este mesmo, o de não se organizar, o de correr o palco meio como a tiete Su meio como o intelectual Jairo, bisbilhotando tudo, metade admirador incondicional metade analista desajeitado.

Por fora do filme propriamente dito, esta história do namoro entre Jairo e Su que entrecorta os números musicais de Gil pode muito bem ser tomada como imagem, símbolo, ou marca registrada, de uma boa parte da produção que se faz aqui e agora, um conjunto de filmes mais determinado pelas condições do mercado do que presença ativa e capaz de interferir e dialogar com o gosto do publico. Letreiros sofisticados, agitados movimentos de câmara, a preocupação de montar um meio de comunicação popular, e uma certa vontade de se despir de qualquer gesto controlado pela razão ou pelo intelecto. Vontade de se abandonar assim como Su aos ventos que sopram para um lado ou para outro (e quem sopra é o mercado) e apertar o botão sem pensar, à espera de um público fiel e caloroso como uma tiete.


Corações a Mil. Direção de Jom Tob Azulay. Roteiro de João Carlos Motta. Fotografia de Miguel Rio Branco, com câmaras de Lauro Escorei, Adrian Cooper e Johnny Howard. Montagem de Eunice Gutman. Direção de som e edição musical de Walter Goulart. Som direto de Jorge Saldanha e Sílvia Alencar. Mixagem de José Luís Sasso. Com Joel Barcelos (Jairo / Dr. Honório), Regina Case (Su), Gilberto Gil e os músicos do show Luar (e a voz de Paulo César Pereio para o Dr. Honório). Produção da A & B Produções Cinematográficas, GG Produções, Solares Produções e WEA Discos. (...) Distribuição da Embrafilme. Brasil 1983.

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