AFIRMACÂO

aqui me negam
aqui eu me afirmo
o que me negam
é o que eu persigo
aqui me pegam
aqui eu revido

onde falta o pâo
ajunto a minga fome
onde a vida é infame
eu finco meu homem
onde os homens lutam
ofereço meu braço

onde sufocam a palavra
minha voz é necessária
onde pensar é um crime
eu sou subversive
onde vivam a morte
ai é que eu vivo

onde há falta de amor
ai é que eu amo
onde te negam
eu te proclamo
onde tudo é negação
ai eu kigo meu NAO


Felix de Athayde 1964


O BLA-BLA-BRAS

a pátria grande
a pátria à garra
o colosso calado
o orador caudaloso
a pátria amada
a pátria amarga
o país do futuro
o futuro no escuro
a grande nacao
a grande danação
o berço esplendido
o “beiço” estupendo
a terra prometida
a terra proibida
a grande história
a grande estória
o grande destino
o grande destino
o grande marechal
o maior mal.
a grande sociedade
a grande suciedade
o país da esperanca
o país da conchambranca
o amanha é nosso
o amanhã é um osso
o brado retumbante
o bardo retumbante
o maior povo
o mais jó dos povos
a mãe gentil
a pátria que pariu
o país do bla-bla-brás
o bla-bla-bla-sil


Felix de Athayde 1965


1 DE ABRIL, 1964

tempo
aqui Brasil
1964
1 de abril
ordem e progresso
espada ne cinta
constituicão no bôlso
es generais
se beijam ne bôca
paz
amor febril
pelo Brazil
a democracia
está salva
-salve-se quem puder
os banqueiros
defendem os interêsses
dos operarios
a juros de 12% ao mes
( inflação operário
se combate
com reducao
de salário )
1 de abril
a família
marcha
com Deus
pela liberdade
marcha democrata
coraçao de lata
sangue de barata
nerves de sucata

marcha democrata
cabeça de papel
marcha marcha marcha
sob as ordens do quartel

a família
está salva
pombas brancas
voam
das vúlvas róseas
das donzelas
Brazil
1 de abril
padre botelho
prega o amor
“armai-vos
uns aos outreos”

II

súbito
cala a bôca
baioneta calada
bôca calada
bôca fala
bala cala
com mao de ferro
tacao de ferro
a ferro e fôgo
começa a construção
do silêncio
de início é um crepitar
de livros na fogueira
pontapés na bôca
de quem protesta
grunhidos na TV
sôbre democracicia

III

começa a descer
a cortina do silêncio
já se pode dormer
sem a gritaria
de povo nas ruas
já podes ouvir
tua consciência
tranquila
come um pôço
(é a tua consciência?)
é o ruido das chaves
nas portas dos cárceres

j’a podes dormer
teu sono de pedra
-talvez sonhar
quem sabe?
com que?

dorme dorme dorme
teu sono secegado
já hao há comunistas
sôbre teu telhado

dorme teu sono de justo
teu sono cristão enorme
as ações sobem na bôlsa
e tu dormes, come-e-dorme

IV

enquanto dormes
êles constroem o silêncio
80 milhões de bôcas
ja estão fechadas
(algumas para sempre)

o silêncio
te apavora?
te cobres
te reduzes
objeto
abjeto

os generais te doaram
um Congresso de silêncio
-no Brasil nao há fome
quem estiver de acôrdo
permaneça calado
- APROVADO

 

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