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"A CINEASTA QUERIDA E INTERDICTA, COM UM BEIJO DO  ABDIAS DO NASCIMENTO."

 

 

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Felix de Athayde

JORNAL DO BRASIL

RIO DE JANEIRO

14
Agosto
1968


Cargas e encomendas também viajam bem .. viajam VASP!

Censura proíbe exibição de duas peças e dois filmes de curta metragem

Brasília (Sucursal) — As peças Dentro da Noite Suja, de Plínio Marcos, e A Prostituição de Temis de Francisco César Palma de Araújo e os curta-metragem Opção, de Lívio Cintra, e Instantâneo 65, de Vera Lúcia Carlos Pereira, têm sua exibição proibida em todo o país.

As peças e os filmes foram proibidos pelo chefe do Serviço de Censura da Polícia Federal, coronel Aluisio Muhlethaler, porque contrariam dispositivos do Artigo 41, do Decreto 20 493, de 1946.

SEM EXPLICAÇÃO

O coronel Muhlethaler não tem especificado, nas suas últimas proibições, quais dispositivos do Artigo 41 são infringidos.

Os dispositivos são oito: “ofensa ao decoro público”, “cenas de ferocidade”, “induzir aos maus costumes”, ”incitamento contra o regime”, “induzir ao desprestígio das Forças Armadas”, “ofensa às coletividades e religiões”, “prejudicar as relações cordiais entre os povos” e “ferir a dignidade e o interesse nacionais”.

 

JORNAL DO BRASIL

RIO DE JANEIRO

19
Julho
1968


Conheça o Brasil, viajando bem... viajando VASP

"A CINEASTA QUERIDA E INTERDICTA, COM UM BEIJO DO  ABDIAS DO NASCIMENTO."

Festival de filmes e cancelado

Brasília (Sucursal) - O III Festival do Filme Brasileiro de Curta Metragem foi definitivamente cancelado ontem à noite, depois que o diretor da Polícia Federal, General Cupertino Bretas, recusou-se a permitir a exibição, mesmo a portas fechadas, de dois filmes que tinham sido proibidos anteontem e de um terceiro, que deveria sofrer cortes.

O General Cupertino Bretas disse que liberaria os filmes desde que o júri se comprometesse a não premiá-los, porque senão a imprensa usaria o fato para atacar a Censura. A proposta foi rejeitada. Os filmes proibidos são Instantâneo-65, de Vera Lúcia Carlos Pereira (Rio), Opção, de Lívio Cintra (São Paulo) e Aleluia, de Schubert Magalhães (Minas Gerais).

 

O GLOBO

RIO DE JANEIRO

20
Julho
1968


Para todo o Brasil, viaje bem... viaje VASP

Suspenso Festival de Curta-Metragem

BRASÍLIA (O GLOBO) — Foi definitivamente suspenso o III Festival do Filme Brasileiro de Curta-Metragem, que se realizava na Escola-Parqae, sob o patrocínio da Fundação Cultural do Distrito Federal. A suspensão ocorreu no segundo dia da programação, em face da interdição de duas películas consideradas subversivas, e o corte de uma outra, que o Serviço de Censura achou imoral.

Enquanto isso, será encerrada hoje, às 21 horas, a VII Jornada Nacional de Cine-Clubes, iniciada juntamente com o Festival de Curta-Metragem.

Assinada pêlos Srs. Dayz Peixoto, Luís Carlos Ribeiro Borges, Ricardo Saunders. Paulo Tourinho e outros, da Comissão Organizadora do Festival, foi distribuída à imprensa nota de protesto contra a ação da Censura Federal, "que interditou Instantâneo 65, de Vera Lúcia Carlos Pereira, da Guanabara; Opção, de Lívio Cintra, de São Paulo; e fez cortes do filme Aleluia, de Schubert Magalhães, de Minas Gerais.

 

O GLOBO

RIO DE JANEIRO

18
Julho
1968


Para todo o Brasil, viaje bem... viaje VASP

Cortes de Censura Causam a Suspensão do Festival

BRASÍLIA (O GLOBO) - A interdição de dois filmes e o corte de um terceiro, pela Censura Federai os primeiros por' subversão c o último por ser considerado imoral, determinou a suspensão do III Festival do Filme Brasileiro de Curta Metragem e da VII Jornada Nacional de Clubes, aqui instalados terça-feira última.

Os filmes proibidos são Opção, de Lívio Cintra (São Paulo), e Instantâneos 65, de Vera Lúcia Carlos Pereira (Guanabara), tendo sido Aleluia, filme de Schubert Magalhães, cortado em quase duzentos pés, "de forma a inutilizar toda a fita", segundo nota oficial divulgada pela direção do Festival.

Assembléia

As películas atingidas já foram exibidas, ao que observaram os dirigentes da Jornada, no Estado da Guanabara, sem que houvesse qualquer i n t e r ferência do Serviço de Censura, que as liberou por completo.

Cerca das 21 horas de ontem, quando quase todo o, auditório da Escola-Parque se achava lotado, um dos participantes do encontro subiu ao palco para informar que a sessão programada não mais seria realizada e que o Festival estava suspenso por 24 horas, período em que seria tentado um diálogo com a Censura no sentido da liberação das obras interditadas. Na oportunidade. foi sugerida a instalação de uma assembléia.

Ataques

O crítico baiano. Válter Silveira pediu que o público se retirasse, tendo em vista a denúncia de que havia entre os presentes grande número de agentes da DOPS.

O pedido não foi levado em conta, sucedendo-se discursos cuja marca principal era a violência da linguagem. Neles, a Censura era c l a s s i f i c ada de "imoral, composta de homens sem instrução e insensíveis", ao passo que o Governo era tachado de "ditatorial" e outras coisas.

Na presidência dos trabalhos, o Sr. Ary Neves Mendonça d e c i d i u retirar-se, tendo o presidente do Conselho Nacional de Cines - Clubes decidido, debaixo de vaias, levantar a sessão, marcando outra para as 10 horas.

A essa altura, representantes de vários Estados, dentre eles Guanabara e Minas Gerais, convidaram o público a permanecer no recinto, instalando, já então sem a responsabilidade dos dirigentes do Festival, uma assembléia popular.

NOTA' Oficial

A direção do III Festival do Filme Brasileiro de Curta Metragem distribuiu à imprensa, esta madrugada, a seguinte nota oficial sobre os acontecimentos:

"Todos os diretores e participantes do III Festival do Filme Brasileiro de Curta Metragem resolveram suspender a exibição dos filmes até a& 18 horas do dia 18, porque a Censura proibiu duas fitas participantes e cortou em mais de duzentos pés uma terceira. Caso o Serviço de Censura não reconsidere a sua atitude, o Festival será suspenso definitivamente.”

Os p a r t i c i p a n t e s da VII Jornada consideram esta medida da Censura mais uma prova de sua arbitrariedade e uma das formas mais c o n d e náveis de repressão cultural.

Os filmes proibidos foram Opção, de Livio Cintra, de São Paulo, e Instantâneos 65, de Vera Lúcia Carlos Pereira, da Guanabara. O filme Aleluia, de Schubert Magalhães, foi mutilado em, quase duzentos pés. sendo que os cortes foram feitos de forma a inutilizar toda a fita.

Os delegados da VII Jornada aguardam o pronunciamento da Censura, esperando que esta reconsidere sua posição, que fere flagrantemente a liberdade de expressão e o direito de livre exibição de filmes .de festivais".

Festival de Curta-Metragem é suspenso no DF porque a Censura proibiu dois filmes

Brasília (Sucursal) – O III Festival do Filme Brasileiro de Curta-Metragem foi suspenso ontem à noite, pêlos seus dirigentes por haver a Censura proibido a exibição dos filmes Instantâneo 65, de Vera Lúcia Carlos Pereira, do Rio, e Opção, de Lívio Cintra, de São Paulo, sob a alegação de serem subversivas as duas películas.

A VII Jornada Nacional de Cineclubes prosseguirá normalmente, tendo sido estabelecido, porém pêlos dirigentes do Festival, o prazo até as 18 horas de hoje para que a Censura libere os dois filmes interditados, sob pena de cancelarem definitivamente a.s demais projeções cinematográficas.

Assembléia

Logo após a suspensão do III Festival, cerca de mil pessoas presentes na Escola Par- que, onde deveriam ser exibidos os filmes, transformaram o que deveria ser a primeira sessão do festival em uma assembléia de protesto contra a Censura e o Governo.

Durante a assembléia, o comandante Geraldo Henning, presidente da Fundação Cultural do Distrito Federal, entidade promotora da VII Jornada Nacional de Cineclubes, que está sendo realizada em conjunto com o III Festival, se dirigiu à assembléia e disse que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo.

Em seguida, o Sr. Geraldo Rocha, presidente do Clube de Cinema de Brasília, e um dos responsáveis pelas promoções, também se dirigiu à assembléia afirmando que não se responsabilizava pelo que pudesse acontecer.

Diante disso, alguns diretores cinematográficos que estavam presentes, tomaram as rédeas dos acontecimentos e declararam regime de assembléia popular, sendo liderados por Leon Hirszman, diretor dos filmes A Falecida e Garota de Ipanema.

Após falarem mais alguns oradores, todos acusando os métodos da Censura e da política do Governo, ficou decidido que passariam a noite elaborando um manifesto que será divulgado hoje, e do qual constarão os problemas discutidos na assembléia e reivindicações da classe cinematográfica brasileira.

CRÍTICAS

— As primeiras reuniões plenárias da VII Jornada Nacional de Cineclubes e do III Festival Brasileiro de Curta-Metragem, realizadas ontem se caracterizaram por protestos contra as atividades políticas e culturais do atual Governo e, por unanimidade, foi aprovada moção pedindo a extinção do Instituto Nacional do Cinema.

Os participantes do festival ouviram uma conferência do crítico Jean-Claude Bernadet, que sugeriu a extinção do INC e recomendou a todos os cineastas uma luta pela "liberdade total do cinema. Luta que, realizada dentro do campo cinematográfico, é política, porque é contra a ditadura".

CONFERÊNCIA DE BERNADET

Convidado especial da Jornada e do Festival, Jean-Claudo Bernadet, na conferencia realizda pela manha na Escola – Parque, começou explicando que o cinema nacional não tem condições de concorrer em pé de igualdade com as produções estrangeiras dentro do mercado interno. Mostrou que as distribuidoras estrangeiras contam com o apoio de entidades oficiais, "como o INC", para "estrangular" a concorrência dos filmes nacionais.

Citando fatos, o conferencista demonstrou que o próprio diretor do INC e o Ministro da Educação têm opiniões diferentes, anunciadas em atos oficiais, a respeito dos problemas que envolvem a indústria cinematográfica brasileira. Por exemplo, o Ministro Tarso Dutra recentemente tomou posição contra um projeto que elevava a percentagem de exibição compulsória' de filmes nacionais, alegando que a produção brasileira não estava em condições de atender às casas exibido rãs, caso fosse elevado o número de apresentações obrigatórias; na mesma oca ao, o Sr. Durval Gomes Garcia. Diretor do INC, "advertia contra ia superprodução de filmes".

Acusou o INC de viver sob a manutenção dos filmes estrangeiros e pediu a extinção da entidade, alegando que foram desvirtuados os princípios de sua criação e que o cinema brasileiro deveria repelir o "paternalismo oficial".

Entende que os últimos movimentos estudantis tiveram influencia sobre os meios cinematográficos, pelas suas reivindicações e por fazer com que "cineastas que defendiam posições industrialistas modificassem suas opiniões e enveredassem pelo caminho certo".

Com relação aos diretores cinematográficos que se uniram na formação de firmas comerciais para exploração da indústria cinematográfica, disse que, no início, as firmas existiam em função dos cineastas, mas que, agora, os cineastas estavam passando a viver em função das firmas. O fato, na sua opinião, esta fazendo com que vários diretores analisem suas posições e busquem a preservação das respectivas independências.

Finalmente, o crítico Jean-Claude Bernadet pediu que todos os cineastas e cineclubisias empenhassem-se na luta “pela liberdade total do cinema". Em seguida, recebeu aprovação geral do plenário uma sugestão no sentido de que os participantes da Jornada e do Festival assumissem uma posição, através do manifesto e campanha pela imprensa, em favor daquela luta solicitada.

Censura interdita peça de Abílio Pereira de Almeida e o filme "Zé do Caixão"

Brasília (Sucursal) – O chefe de Censura d Policia federal, coronel Aloísio Muhlethaler, proibiu ontem a exibição de filme O estranho mundo de Zé do Caixão e da peça O Clube da Fossa, de Abílio Pereira de Almeida, em todo o território nacional.

Ao mesmo tempo em que um porta-voz da Censura dizia que o órgão não recebera a letra de Che Guevara não morreu, de Sérgio Ricardo, liberava informação de outras interdições, sôbre as peças Prostituição de Themis e Dentro duma noite suja, esta última de Plínio Marcos.

INFRAÇÕES

O filme de José Mojica Marins, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, segundo a portaria do chefe da Censura Federal, contém "cenas atentatórias à moral e aos bons costumes, além de sugerir a prática da violência contra a pessoa humana."

Em relação à peça O Clube da Fossa, de Abílio Pereira de Almeida, divulgou-se que contém uma das seguintes infrações: ofensa ao decôro público, cenas de ferocidade, incitamento contra o regime, indução ao desrespeito às Fôrças Armadas, ofensa às coletividades ou às religiões, indução aos maus costumes, ferimento à dignidade nacional, prejuízo às relações cordiais entre os povos.

O Serviço de Censura de Diversões Públicas do Departamento de Policia Federal ainda não recebeu a letra de Che Guevara Não Morreu, canção de Sérgio Ricardo, premiada no Festival de Música de Protesto na Bulgária, não adiantando se será ou não permitida a sua gravação.

A direção do Serviço confirmou ter interditado as peças teatrais Prostituição de Themis, de Francisco César Palma de Araújo, e Dentro duma noite suja, de Plínio Marcos, por infrações ao Artigo 41 do Decreto n.° 20 403.

A Censura interditou, também, os filmes Opção e Instantâneo 65, de Vera Lúcia Carlos Pereira. Essas interdições foram baseadas no Artigo 41 do Decreto n.° 20 495, sendo considerados subversivos. As peças teatrais de Palma e Plínio Marcos foram consideradas imorais.

Censura veta duas peças e dois filmes

O Chefe do Serviço de Censura é Diversões Públicas baixou portaria proibindo a exibição, em todo o território nacional, das peças "Dois Perdidos Numa Noite Suja", de Plínio Marcos e "A Prostituição de Têmis", de Francisco César Palma de Araújo; e dos filmes "Opção", de Lívio Cintra, e "Instantâneos 65", de Vera Lúcia Carlos Pereira ambos feitos em 16 milímetros.

— O III Festival do Filme Brasileiro de Curta-Metragem em Brasília foi suspenso pela retirada dos filmes concorrentes em sinal de protesto pela interdição, por parte da Censura Federal, de Instantâneo 65 da Guanabara, e Opção de São Paulo, além de cortes efetuados ilegalmente em Aleluia, de Belo Horizonte.

CINEMA EXTRA
E.A.

Fellini e Valentino, Bergman e Vilma Banky , Chaplin, Norma Talmadge e os cômicos da Idade de Ouro do cine humorismo americano povoam a semana extra.


BERGMAN: A FONTE – Um dos Bergman menos significativo, A Fonte da Donzela (Jungfrukallan), 1959 com Max von Sidow magistral a frente do elenco. Quinta-feira, em sessões continuas, no cinema de arte Tijuca-Palace. (Cinemateca do MAM).


FELLINI VITELLONE – Fellini põe memórias de seu tempo de vitellone no admirável Os Boas-Vidas (I Vitelloni), com um Alberto Sordi brilhante, sábado, a meia-noite, no cinema de arte Paissandu. (Cinemateca do MAM)..


CURTOS NACIONAIS – Seleção de curtos brasileiros da produção recente: Noturno de Goeldi, de Carlos Frederico, Uma Crônica Policial, de Georges Racz, A Sala dos Milagres, de Alberto Salvá, Instantâneos 65, de Vera Lúcia Pereira, O Livro, de Fernando Amaral, Lapa 67, de Renato Neumann, Heleno, de Gilberto Macedo, Têrça-feira, as 18h15m, na Maison de France. Entrada franca. (Cinemateca do MAM).


NORMA TELMADGE E CORINNE GRIFFITH – Programa dedicado a essas duas atrizes no Ciclo do Silencioso Americano: His Official Appointment, de Van Dyke Brook, 1913; Sawdust and Salome, de Brook, 1914; Social Secretary, de John Emerso, 1916; Garden of Éden, de Lewis Milestone, 1928. Amanhã, às 15 horas e 18 horas, na Embaixada americana. O ciclo é patrocinado pela Cinemateca do MAM e CCRJ.


IDADE DE OURO DA COMÉDIA – Behind the Screen; de Chaplin (1916); Flying Elephants, de Frank Bulter, com Laurel & Hardy (1927); e seqüências de filmes interpretados por Charlie Chase, Monty Banks, Fatty Arbuckle (Chico Bóla), Larry Semon, Andy Clyde, Will Rogers, Gloria Swanson.


RODOLFO VALENTINO – Condensação dos seguintes filmes: Blood and Sand, de Fred Niblo (1922); The Eagle, de Clarence Brown (1825) e Son of the Sheik, de George Fitzmaurice (1926).

museu de arte moderna do rio de janeiro



Rio, tarde de sábado.

Vera Lucia:

Estou acabando de chegar de... Londres.

Infelizmente esquecí minha agenda de endereços na mesa de casa. Não pude encontrá-la aí, apesar de lembrar vagamente que v. morava em Surrey. Estive com Cristina e Jô (que localizei na base da sorte e do raciocínio) e estes disseram que v. provavelmente não estaria mais no antigo endereço.

Mas voltei e encontrei um cartão seu, coletivo, Pena, espero que da próxima vez eu não seja tão esquecido e poderemos nos encontrar, apesar de nossas diferenças...

Aproveito pra mandar a v. alguns recortes que interessarão, sôbre INSTANTANEO 65. Acontece que, num momento de euforía, resolví inscrever o filme no Festival de Brasília. Resultado: a censura interditou o filme (juntamente com outro curto, de SP), os diretores participantes retiraram seus filmes em sinal de protesto, o Festival acabou. Pelas notícias v. verá de que o filme foi finalmente interditado para tôdo território nacional, o que deu uma certa fama a você.

Maiores detalhes nos recortes. E aguarde o restante em outras cartas – que sòmente irão se você reagir positivamente a esta.

Provàvelmente estarei novamente em Londres no mês de novembro. Com frio e tudo.
signature
Cosme Alves Neto
 

TRIBUNA

RIO DE JANEIRO

16
Junho
1966


PRÊTO NO BRANCO
Carlos Alberto

Otelo um homem esquecido pelo cinema nôvo

Encontro meu velho amigo Grande Otelo, na porta do cinema Riviera. Esta castrado de sorrisos. Daqui a poucos minutos Carlos Diegues, diretor de “Â Grande Cidade” vai participar de um debate sôbre o seu filme. Otelo, firme em sua tristeza, olha as moças e os rapazes, um pouco decepcionado:

— Esta gente do cinema novo esqueceu de mim. Dizem que sou muito caro. Não é verdade. Veja você como êles são moços. Mexer com eles ê a mesma coisa que mexer numa casa de marimbondos. Todos sabem o que querem e estão trabalhando.


Uma criança pede esmola, Otelo retira sua certeira e percebe que dentro dela há diversas fotografias suas e algumas cartas.

— Que historia é esta Otelo, você anda com cartas, fotografias. As fotos são para os fãs?

— O que você quer? O radio voltou. Esta tudo igualzinho ao rádio de antigamente. Veja esta carta...

Ê uma carta de uma menina de dez anos e lá dentro uma fotografia. A carta é clássica: ”gostaria de ganhar uma foto sua autografada para botar na cabeceira de minha cama“ Uma moca muito simpática e tímida aproxima-se de Otelo. Quero lhe fazer uma perguntas, uma pesquisa para o Museu de Arte Moderna. A moca parece desconhecer completamente o passado do artista. Otelo continua firme, castrado de sorrisos, mas gentil.

— Como e o seu nome?

— Meu nome é Vera Lúcia Carlos Pereira. Trabalho na Ducal. Nas horas vagas faço o meu filme. Quantos anos tenho? Quinze.

No Brasil, as môças bonitas, vendem roupa de dia e a noite dirigem filmes. A vida e ainda bissextamente eterna ou são as mocas que dão esta fugaz impressão? Descemos para o cinema. O diretor Carlos Diegues, que tem uns 30 anos responde com lucidez e objetividade perguntas de todo mundo. O critico Alex Viani faz-lhe uma pergunta:

— Achei o seu filme um pouco sentimental. Eu e a minha empregada gostamos muito do filme. Estou hoje convicto que devemos usar os mesmos truques das novelas para atingir as massas e transmitir nossas verdades. O que você acha?

— Não acho. Acho as novelas a armadura do nada, inventando o nada.

O crítico Alex Viana devia aposentar sua empregada...


Grande Otelo, campeão de Iô-Iô (é um dos seus hobbies favoritos), homem de cinema frustrado, pois seu sonho, há vinte anos, é filmar a lenda do Negrinho do Pastoreio, abandonado pelo Nôvo Cinema Brasileiro, é um homem triste nesta madrugada junho:

— Solidão é um bicho que não se aposenta. Tenho 50 anos de idade, mas aos 40 aposentei-me interiormente da vida artística. Faço hoje televisão...

— Há dez anos você está aposentado, interiormente?

— As dificuldades foram muitas. Burrices, má vontade, tôdas as espécies de barreiras. Aos oito anos de idade, fizeram de mim uma criança prodígio... Mas isso faz muito tempo! Estes meninos e estas meninas do cinema são caladinhos, mas sabem de tudo. Veja você aquela môça que estava aqui: 20 anos e já fêz um filme. Tenho a idéia de dois filmes na gaveta, mas êles não querem saber de mim. Ê sempre aquela história. Sou caro de mais... Bobagem, isso.

Deixo o meu amigo Grande Otelo em seu carrinho vermelho. Vai para a Clinica São Vicente, onde todos os anos concerta as rugas dos seus aborrecimentos e gessa as dores do seu antebraço. Nesta madrugada é um homem lúcido que não bebe há muitos meses e está intoxicado de solidão. Na televisão ou num palco éle transforma esta solidão numa fábrica de gargalhadas. Não é uma solução ideal nem rima com nenhum sossêgo, mas dá para sobreviver mais uma madrugada.

 

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